quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Psicologia do Conto, por Drª Alexandra Fernandes

A fantasia básica deste conto infantil expressa os obstáculos ou provas que precisam de ser vencidos (a aceitação da realidade, a aceitação de si e da sua auto-imagem), para que o herói alcance a sua auto-realização. O herói nesta história é, à partida, o Leão, uma personagem imponente, que transmite confiança e bravura, dignos de um Rei; mas, na realidade, a escritora permite-nos transmitir esse papel a todos os amigos que o ajudam numa jornada em busca da sua farta cabeleira, desaparecida de forma mágica.
Esta história parte, assim, de um problema vinculado à realidade, um problema que encontramos na nossa sociedade: a aceitação, o sentimento de pertença, a imagem pessoal que agrada aos outros. Este leão perdera aquilo que mais o identificava como poderoso, a sua juba. Será que os outros animais estariam pré-dispostos a aceitá-lo sem essa característica? Será que continuariam a gostar dele? Esta é uma realidade que aflige as crianças, não só hoje, mas desde sempre: a aceitação dos seus pares, perante uma mudança física.

De um ponto de vista psicológico, tudo o que para um adulto é natural e trivial, inicialmente  foi descoberto e percebido pela criança. A criança deve aprender a lidar com os seus instintos e impulsos mais profundos, da natureza humana em geral, e deve afirmar o seu ego contra essas forças. Inconscientemente, os contos infantis e, em especial este, sob a forma de imagens simbólicas, oferecem maneiras para que ela saia vitoriosa. O leão, encontrou na amizade a resposta final ao seu problema, uma vez que todos os animais da selva o ajudaram na busca de uma juba perfeita e digna de um rei.
Como Bettelheim afirma, para que uma história realmente prenda a atenção de uma criança, deve entretê-la e despertar a sua curiosidade. Mas para enriquecer a sua vida, deve estimular-lhe a imaginação: ajudá-la a desenvolver o seu intelecto e tornar claras as suas emoções, estar harmonizada com as suas ansiedades e aspirações, reconhecer plenamente as suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam.
Ou seja, a história deve relacionar-se com todos os aspectos da personalidade e dar crédito às qualidades da criança e promover, ao mesmo tempo, a confiança em si mesma e no futuro. A escritora, conseguiu em pleno alcançar este objectivo!
Alexandra Fernandes

Psicóloga Clínica

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